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29/11/2003 19:53
CONTO Caio Fernando Abreu DO MÊS

Da obra Morangos Mofados, este pequeno conto de Caio Fernando Abreu explora temas como a sensualidade, a homossexualidade e o preconceito de forma arrebatadora e chocante. Confira, vale a pena!

TERÇA-FEIRA GORDA
Para Luiz Carlos Góes


De repente ele começou a sambar bonito e veio vindo para mim. Me olhava nos olhos quase sorrindo, uma ruga tensa entre as sobrancelhas, pedindo confirmação. Confirmei, quase sorrindo também, a boca gosmenta de tanta cerveja morna, vodca com coca-cola, uísque nacional, gostos que eu nem identificava mais, passando de mão em mão dentro dos copos de plástico. Usava uma tanga vermelha e branca, Xangô, pensei, Iansã com purpurina na cara, Oxaguiã segurando a espada no braço levantado, Ogum Beira-Mar sambando bonito e bandido. Um movimento que descia feito onda dos quadris pelas coxas, até os pés, ondulado, então olhava para baixo e o movimento subia outra vez, onda ao contrário, voltando pela cintura até os ombros. Era então que sacudia a cabeça olhando para mim, cada vez mais perto.

Eu estava todo suado. Todos estavam suados, mas eu não via mais ninguém além dele. Eu já o tinha visto antes, não ali. Fazia tempo, não sabia onde. Eu tinha andado por muitos lugares. Ele tinha um jeito de quem também tinha andado por muitos lugares. Num desses lugares, quem sabe. Aqui, ali. Mas não lembraríamos antes de falar, talvez também nem depois. Só que não havia palavras. havia o movimento, a dança, o suor, os corpos meu e dele se aproximando mornos, sem querer mais nada além daquele chegar cada vez mais perto.

Na minha frente, ficamos nos olhando. Eu também dançava agora, acompanhando o movimento dele. Assim: quadris, coxas, pés, onda que desce, olhar para baixo, voltando pela cintura até os ombros, onda que sobe, então sacudir os cabelos molhados, levantar a cabeça e encarar sorrindo. Ele encostou o peito suado no meu. Tínhamos pêlos, os dois. Os pêlos molhados se misturavam. Ele estendeu a mão aberta, passou no meu rosto, falou qualquer coisa. O quê, perguntei. Você é gostoso, ele disse. E não parecia bicha nem nada: apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o meu, que por acaso era de homem também. Eu estendi a mão aberta, passei no rosto dele, falei qualquer coisa. O quê, perguntou. Você é gostoso, eu disse. Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também.

Eu queria aquele corpo de homem sambando suado bonito ali na minha frente. Quero você, ele disse. Eu disse quero você também. Mas quero agora já neste instante imediato, ele disse e eu repeti quase ao mesmo tempo também, também eu quero. Sorriu mais largo, uns dentes claros. Passou a mão pela minha barriga. Passei a mão pela barriga dele. Apertou, apertamos. As nossas carnes duras tinham pêlos na superfície e músculos sob as peles morenas de sol. Ai-ai, alguém falou em falsete, olha as loucas, e foi embora. Em volta, olhavam.

Entreaberta, a boca dele veio se aproximando da minha. Parecia um figo maduro quando a gente faz com a ponta da faca uma cruz na extremidade mais redonda e rasga devagar a polpa, revelando o interior rosado cheio de grãos. Você sabia, eu falei, que o figo não é uma fruta mas uma flor que abre pra dentro. O quê, ele gritou. O figo, repeti, o figo é uma flor. Mas não tinha importância. Ele enfiou a mão dentro da sunga, tirou duas bolinhas num envelope metálico. Tomou uma e me estendeu a outra. Não, eu disse, eu quero minha lucidez de qualquer jeito. Mas estava completamente louco. E queria, como queria aquela bolinha química quente vinda direto do meio dos pentelhos dele. Estendi a língua, engoli. Nos empurravam em volta, tentei protegê-lo com meu corpo, mas ai-ai repetiam empurrando, olha as loucas, vamos embora daqui, ele disse. E fomos saindo colados pelo meio do salão, a purpurina da cara dele cintilando no meio dos gritos.

Veados, a gente ainda ouviu, recebendo na cara o vento frio do mar. A música era só um tumtumtum de pés e tambores batendo. Eu olhei para cima e mostrei olha lá as Plêiades, só o que eu sabia ver, que nem raquete de tênis suspensa no céu. Você vai pegar um resfriado, ele falou com a mão no meu ombro. Foi então que percebi que não usávamos máscara. Lembrei que tinha lido em algum lugar que a dor é a única emoção que não usa máscara. Não sentíamos dor, mas aquela emoção daquela hora ali sobre nós, eu nem sei se era alegria, também não usava máscara. Então pensei devagar que era proibido ou perigoso não usar máscara, ainda mais no Carnaval.

A mão dele apertou meu ombro. Minha mão apertou a cintura dele. sentado na areia, ele tirou da sunga mágica um pequeno envelope, um espelho redondo, uma gilette. Bateu quatro carreiras, cheirou duas, me estendeu a nota enroladinha de cem. Cheirei fundo, uma em cada narina. Lambeu o vidro, molhei as gengivas. Joga o espelho no mar pra Iemanjá, me disse. O espelho brilhou rodando no ar, e enquanto acompanhava o vôo fiquei com medo de olhar outra vez para ele. Porque se você pisca, quando torna a abrir os olhos o lindo pode ficar feio. Ou vice-versa. Olha pra mim, ele pediu. E eu olhei.

Brilhávamos, os dois, nos olhando sobre a areia. Te conheço de algum lugar, cara, ele disse, mas acho que é da minha cabeça mesmo. Não tem importância, eu falei. Ele falou não fale, depois me abraçou forte. Bem de perto, olhei a cara dele, que olhada assim não era bonita nem feia: de poros e pêlos, uma cara de verdade olhando bem de perto a cara de verdade que era a minha. A língua dele lambeu meu pescoço, minha língua entrou na orelha dele, depois se misturaram molhadas. Feito dois figos maduros apertados um contra o outro, as sementes vermelhas chocando-se com um ruído de dente contra dente.

Tiramos as roupas um do outro, depois rolamos na areia. Não vou perguntar teu nome, nem tua idade, teu telefone, teu signo ou endereço, ele disse. O mamilo duro dele na minha boca, a cabeça dura do meu pau dentro da mão dele. O que você mentir eu acredito, eu disse, que nem na marcha antiga de Carnaval. A gente foi rolando até onde as ondas quebravam para que a água lavasse e levasse o suor e a areia e apurpurina dos nossos corpos. A gente se apertou um conta o outro. A gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro. Tão simples, tão clássico. A gente se afastou um pouco, só para ver melhor como eram bonitos nossos corpos nus de homens estendidos um ao lado do outro, iluminados pela fodforescência das ondas do mar. Plâncton, ele disse, é um bicho que brilha quando faz amor.

E brilhamos.

Mas vieram vindo, então, e eram muitos. Foge, gritei, estendendo o braço. Minha mão agarrou um espaço vazio. O pontapé nas costas fez com que me levantasse. Ele ficou no chão. Estavam todos em volta. Ai-ai, gritavam, olha as loucas. Olhando para baixo, vi os olhos dele muito abertos e sem nenhuma culpa entre as outras caras dos homens. A boca molhada afundando no meio duma massa escura, o brilho de um dente caído na areia. Quis tomá-lo pela mão, protegê-lo com meu corpo, mas sem querer estava sozinho e nu correndo pela areia molhada, os outros todos em volta, muito próximos.

Fechando os olhos então, como um filme contra as pálpebras, eu conseguia ver três imagens se sobrepondo. Primeiro o corpo suado dele, sambando, vindo em minha direção. Depois as Plêiades, feito uma raquete de tênis suspensa no céu lá em cima. E finalmente a queda lenta de um figo muito maduro, até esborrachar-se contra o chão em mil pedaços sangrentos.


.............
É isso, espero que tenham gostado, eu adoro, apesar de achar um pouco triste, mas a realidade é assim mesmo, e este conto retrata bem a intolerância que homossexuais sofrem ao tentar se expressar no meio dos que se julgam "normais". Well, mês que vem tem outro conto do meu escritor favorito pintando por aqui, até lá!
That's it!
enviada por Garland



29/11/2003 07:30
COMO SEMPRE: FILMES
Só para não perder o costume, minha opinião sobre alguns filmes que assisti recentemente. As sinopses foram retiradas do site www.adorocinema.com.br (é isso mesmo: pura preguiça de resumir as histórias, heheh).


QUASE FAMOSOS
(Almost Famous, EUA, 2000. Direção: Cameron Crowe. Com Billy Crudup, Frances McDormand, Kate Hudson e Jason Lee)

Sinopse:
Um fã ávido por rock'n'roll consegue um trabalho na revista americana Rolling Stone, para acompanhar a banda Stillwater em sua primeira excursão pelos Estados Unidos. Porém, quanto mais ele vai se envolvendo com a banda, mais vai perdendo a objetividade de seu trabalho e logo estará fazendo parte do cenário rock dos anos 70.

Minha opinião:
Assisti no dia 20 de novembro às duas versões, a de cinema e a do diretor. Adorei este filme, sério candidato a filme de estimação. Com uma história agradável de assistir, em momento nenhum aborrecida, o filme , que retrata a juventude do diretor, foi feito com carinho e o espectador sente isso, são vários os personagens mas cada um tem seu momento de brilho na trama. Há um tom nostálgico e a trilha sonora é contagiante, é um dos melhores filmes sobre bandas que já vi, um road movie de primeira, com interpretações brilhantes, especialmente as de Kate Hudson e Frances McDormand ambas indicadas ao Oscar de melhor atriz coadjuvante. Quase Famosos foi vencedor do Oscar de melhor roteiro original, merecido, pois o filme é uma maravilha. Nota: 9
......................

REVELAÇÃO
(What Lies Beneath, 2000, EUA. Direção: Robert Zemeckis. Com Harrison Ford, Michelle Pfeiffer)

Sinopse:
Já fazia um ano que o Dr. Norman Spencer (Harrison Ford) havia traído sua bela esposa, Claire (Michelle Pfeiffer). Mas, com ela sem saber de nada e o affair já encerrado, a vida e o casamento de Norman seguia perfeita. Até que Claire começa a ouvir misteriosas vozes e ver a imagem de uma jovem mulher perambulando em sua própria casa. Ao saber das visões de sua esposa, Norman não lhe dá atenção e diz que tudo não passam de ilusões. Entretanto, com o tempo fica claro que o ser não irá desaparecer e tem alguma ligação com o casal, fazendo com que Claire se aproxime cada vez mais da verdade sobre o passado de Norman.

Minha opinião:
Re-assisti este suspense no dia 24 de novembro, dessa vez na Tela Quente da Globo. É um bom filme, mas nada de espetacular, a história lembra um pouco a de Ecos do Além com Kevin Bacon, a manjada trama do fantasma que para ter descanso só queria um enterro digno e que o assassino fosse pego. Revelação é interessante por manter o clima contando basicamente com dois personagens e por tirar ótimo partido dramático do ambiente central, mas peca por ter poucos momentos assustadores. O filme é nitidamente influenciado pelo cinema de Alfred Hitchcock e, mesmo utilizando vários clichês, consegue manter um bom ritmo ao imitar o estilo do mestre do suspense. Com uma trama que é uma colcha de retalhos lembrando outras obras como O Bebê de Rosemary (paranóia da personagem central e bruxaria) e O Iluminado (fantasmas, marido revelando lado sádico tentando matar a mulher), Revelação tem seu melhor momento na angustiante cena em que Michelle Pfeiffer, paralisada, encontra-se em uma banheira que vai enchendo lentamente. Nota: 6
............

CORRA LOLA, CORRA
(Lola Rennt, 1998, ALE. Direção:Tom Tykwer. Com Franka Potente e Moritz Bleibtreu)

Sinopse:
Manni (Moritz Bleibtreu), o coletor de uma quadrilha de contrabandistas, esquece no metrô uma sacola com 100.000 marcos. Ele só tem 20 minutos para recuperar o dinheiro ou irá confrontar a ira do seu chefe, Ronnie, um perigoso criminoso. Desesperado, Manni telefona para Lola (Franka Potente), sua namorada, que vê como única solução pedir ajuda para seu pai (Herbert Knaup), que é presidente de um banco. Assim, Lola corre através das ruas de Berlim, sendo apresentados três possíveis finais da louca corrida de Lola para salvar o namorado.

Minha opinião:
Finalmente assisti, nesta quinta-feira, 27 de novembro, a este filme que eu queria ver há tempos. Achei um filme bastante dinâmico, com uma estrutura e edição muito interessantes. A corrida contra o tempo, apresentada em três versões com finais diferentes, sendo que em todas Lola percorre o mesmo trajeto, é mostrada em ritmo frenético e com uma trilha sonora ágil o que impede o filme de se tornar aborrecido em suas repetições. Utilizando-se de recursos variados como desenho animado e tela dividida entre outros, Corra Lola, Corra é um filme vigoroso e irônico, cujo sucesso de crítica e público, conquistado nos diversos países em que foi exibido, só refletem a originalidade desta obra. Nota: 7
.................

RING, O CHAMADO
(Ringu, JAP, 1998. Direção: Hideo Nakata. Com Nanako Matsushima, Miki Nakatani, Hiroyuki Sanada)

Sinopse:
Após a morte de Tomoko Oishi (Yuko Takeuchi), um parente, uma repórter, Reiko Asakawa (Nanako Matsushima), ouve histórias de um vídeo que mata quem o vê uma semana exatamente após assisti-lo. No início não dá importância aos rumores, mas ao descobrir que um amigo de Tomoko, que assistiu o vídeo, morreu exatamente uma semana depois ela começa a investigar. Após ver a fita estranhas coisas começam a acontecer e, assim, pede ajuda ao seu ex-marido, Ryuji Takayama (Hiroyuki Sanada), para tentar deter o relógio da morte, que começou a fazer tique-taque uma vez mais. Além disto ela toma conhecimento da existência de Sadako (Rie Inou), filha de uma famosa para-psicóloga submetida décadas antes a vários experimentos. Quando Yoichi (Rikiya Otaka), seu pequeno filho, assiste ao conteúdo da fita isto a lança em uma corrida contra o tempo para encontrar um meio de combater a sinistra maldição, que se manifestará em sete dias.

Minha opinião:
Assisti em 27 de novembro a este filme japonês que deu origem ao remake americano grande sucesso de bilheteria no mundo todo. O Chamado, o remake, já é um de meus filmes de estimação, em tempos nenhum filme mexeu tanto comigo, e este é um requisito para um filme se tornar especial para mim, ele tem que "mexer comigo", isto é, tenho que me sentir tocado pelo filme a ponto de desejar revê-lo outras vezes. Levando em conta que gostei tanto da refilmagem, surgiu uma curiosidade pelo filme japonês, a título de comparação. Ringu foi um tremendo sucesso no Japão e deu origem a uma continuação e a um outro filme mostrando os fatos ocorridos antes do original; todo esse sucesso tem razão de ser, o filme é bastante interessante e assustador. Obviamente para quem assistiu antes a versão americana e já tem noção dos rumos que a história toma, os sustos são menores, mas Ringu e O Chamado têem algumas diferenças no desenvolvimento da trama que compensam uma espiada na versão japonesa também.

O filme japonês é um filme econômico que utiliza soluções originais para manter o suspense, vale-se do poder de sugestão apresentando uma história enxuta e livre de arestas. A versão americana, por sua vez, utiliza efeitos especiais em maior escala e tem alguns sustos um tanto óvios e seqüências que beiram o ridículo (como a televisão "empurrando" a personagem para dentro do poço), no entanto supera o japonês ao apresentar personagens mais consistentes, com perfil psicológico melhor elaborado, e porque prima pela lógica com fatos explicados de forma mais coerente e seqüências de maior impacto visual, particularmente achei a versão americana mais intrigante e mais assustadora.

Ring, O Chamado é um bom filme de suspense, e mesmo aqueles que têm preconceito com filmes de origem japonesa, encontrarão nele uma obra interessante capaz de proporcionar bons sustos. Nota: 7
...
That's it!
enviada por Garland



29/11/2003 06:10
MÚSICA DA VEZ
CIEGA, SORDOMUDA de SHAKIRA


Eu adoro SHAKIRA! Existe um certo preconceito quanto a tudo que é pop e Shakira obviamente não escapa disso, mas fodam-se os detratores, eu adoro ela e sua música! Como aconteceu com quase 100% das pessoas meu primeiro contato com o som de Shakira foi quando Estoy Aquí estourou no Brasil e tornou-se um mega hit. A canção, pop e autêntica, foi uma das primeiras em língua espanhola a tocar massivamente nas rádios do país na década de 90, antes disso creio que talvez Rick Martin tenha conseguido este feito, mas nenhuma cantora latina havia conseguido tamanha repercussão, não nas proporções que Shakira conseguiu.

Corria o ano de 1996 e eu estava no 3o ano quando uma bela canção começou a tocar modestamente nas rádios da região. Por ser a região noroeste do Rio Grande do Sul a cultura dos países onde o espanhol é a língua oficial sempre se infiltrou com alguma facilidade ali, quase fronteira com a Argentina. Na época eu tinha preconceito com a língua espanhola, ainda mais com músicas cantadas nesta língua, às quais eu não tinha acesso e nem fazia questão de ter, creio que todo o Brasil mantinha um certo resguardo quanto a canções nesta língua. Mas Estoy Aquí era uma canção deliciosamente pop e logo o país todo estava se rendendo à música da colombiana Shakira. Obviamente muito do sucesso que a canção adquiriu foi por conta do carisma de Shakira, que com menos de 20 anos exibia talento, beleza e uma simpatia fora do comum.

Em 1997 após várias aparições da cantora na TV brasileira, decidi comprar uma fitinha num camelô, afinal eu só conhecia Estoy Aquí, e não estava afim de investir minha grana em um cd ruim. Shakira tinha um estilo diferente nos vocais, o que a qualificava como uma cantora do tipo "ame ou odeie". E eu amei! Adorei a tal fitinha do álbum PIES DESCALZOS, que havia sido lançado em 1995 e começava a ter outras músicas como Dónde Estás Corazón? tocando nas rádios. Não demorou eu estava com o cd em mãos e sabia decor todas as canções, vencendo meu preconceito para com a língua espanhola. O cd, que como o próprio título traduz, procura transmitir, através de suas letras a liberdade, tornou Shakira conhecida por toda a América Latina, vendeu 4 milhões de cópias e imortalizou a já citada "Estoy Aquí". A produção foi de Luis F. Ochoa, seu parceiro em muitas canções. Pies Descalzos foi muito criticado, pois as pessoas não percebiam que Shakira tinha uma forma completamente inovadora de cantar. Foi chamada de desafinada. Mas, de qualquer forma o cd acabou vendendo mais de um milhão de cópias só no Brasil e conquistou 25 discos de ouro e 55 de platina, provando que a cantora e compositora estava destinada ao estrelato.

Eu nessa época já era fã de Shakira e gravava entrevistas com ela na TV, como a primeira vez que esteve no Jô Soares Onze e Meia e deu um show de simpatia. Acho que o que me consquistou em Shakira foi isso, sua simpatia, sim eu adorava suas canções, mas adorava ELA também, pois era divertida, bonita, talentosa, carismática e nada arrogante ou metida a estrela.

Nos últimos meses de 1998 Shakira lançou a confirmação do seu talento, seu quinto cd, DÓNDE ESTÁN LOS LADRONES?, com um atraso de mais de 6 meses, devido ao roubo de sua mala com as canções num aeroporto da Colômbia; assalto esse que a inspirou no nome do disco. Cheio de influências roqueiras que lembram Alanis Morissete, o disco foi muito bem recebido, quem diria, até pela crítica. No Brasil o hit No Creo, quando lançado, já ocupava o 9º lugar nas paradas e chegou ao 2º. Já nos outros países o sucesso foi a música Ciega, Sordomuda e um bom tempo depois, num sucesso retardatário, foi a vez de Ojos Así. Lembro-me que eu estava ansioso pelo novo cd de Shakira, mas quando ela apareceu cantando No Creo fiquei um pouco receoso de que não fosse tão bom, não achei No Creo uma canção muito legal, achei meio enjoada. Mesmo assim comprei o cd e às primeiras audições me pareceu claro que Shakira queria ser uma Alanis Morissette latina, inclusive ela, assim como Alanis em seu recém-lançado Supposing Former Infatuation Junkie, também trazia influências árabes em algumas músicas, além do mesmo tom confessional característico das canções da canadense. Eu adorei a capa de Dónde Están Los Ladrones? (será porque é rosinha? hehe) e aos poucos fui começando a curtir o cd, havia muitas músicas legais e minha preferida até hoje é a deliciosa primeira faixa Ciega, Sordomuda.

Eu ouvia Ciega, Sordomuda nas rádios, antes de comprar o cd, e simplesmente aquela música me fazia parar o que eu estivesse fazendo pois eu a achava muito bonita, principalmente os primeiros acordes. Chamou minha atenção por ser uma música pop e original, inicia com um ritmo mariachi logo em seguida substituído pela dance music e os jogos vocais lembram um pouco os de Estoy Aquí. A letra de Ciega, Sordomuda também é muito interessante e me identifico com ela, afinal quem amou alguém intensamente sabe que isso acontece mesmo, ficar a pensar na pessoa noite e dia, não conseguir esquecê-la, querer exorcizá-la, arrancá-la de dentro de si e não conseguir, se anular às vezes, ficar doidão, perder o rumo por essa paixão. A mesma canção teve uma versão bastante diferente lançada no álbum seguinte de Shakira, o MTV UNPLUGGED de 2000, contando com um grupo de Mariachis o que lhe conferiu um "sabor de guaca mole" como a própria Shakira diz antes de cantá-la, essa versão ficou bem mexicana, mas prefiro a Ciega, Sordomuda original.

Esta é minha música preferida de Shakira, e justamente por isso ela está tocando no meu blog, adoro essa música!! Confira a letra e sua tradução:

CIEGA, SORDOMUDA
Shakira Mebarak R.

Se me acaba el argumento
Y la metodología
Cada vez que se aparece frente
A mí tu anatomia

Por que este amor ya no entiende
De consejos, ni razones
Se alimenta de pretextos
Y le faltan pantalones
Este amor no me permite
Estar en pie
Porque ya hasta me há quebrado
Los talones
Aunque me levante volveré a caer
Si te acercas nada es útil
Para esta inútil

Bruta, ciega, sordomuda,
Torpe, traste, testaruda,
Es todo lo que he sido
Por ti me he convertido
En una cosa que no hace
Outra cosa más que amarte
Pienso en ti día y noche
Y no se como olvidarte

Cuántas veces he intentado
Enterrarte en mi memoria
Y aunque diga ya no más
Es outra vez la misma historia
Porque este amor siempre sabe
Hacerme respirar profundo
Ya me trae por la izquierda
Y de pelea com el mundo

Si pudiera exorcizarme de tu voz
Si pudiera escaparme de tu nombre
Si pudiera arrancarme el corazón
Y esconderme para no sentirme
Nuevamente

Bruta, ciega, sordomuda
Torpe, traste, testaruda,
Es todo lo que he sido
Por ti me he convertido
En una cosa que no hace
Outra cosa más que amarte
Pienso en ti día y noche
Y no se como olvidarte

Ojerosa, flaca, fea, desgreñada,
Torpe, tonta, lenta, necia, desquiciada,
Completamente descontrolada
Tu te das cuenta y no me dices nada
Ves que se me há vuelto
La cabeza un nido
Donde solamente tu tienes asilo
Y no me escuchas lo que te digo
Mira bien lo que vas a hacer conmigo

Bruta, ciega, sordomuda,
Torpe, traste, testaruda,
Es todo lo que he sido
Por ti me he convertido
En una cosa que no hace
Outra cosa más que amarte
Pienso en ti día y noche
Y no se como olvidarte

CEGA, SURDA E MUDA

Acabam-se meus argumentos
E a metodologia
Cada vez que aparece
Na minha frente a sua anatomia

Porque este amor já não entende
De conselhos, nem razões
Se alimenta de pretextos
E lhe falta vergonha
Este amor não me permite
Estar em pé
Porque já quebrou
Meus calcanhares
Mesmo que me levante voltarei a cair
Se você se aproxima nada é útil
Para esta inútil

Bruta, cega, surda e muda,
Desastrada, traste, cabeça dura,
É tudo o que tenho sido
Por você me transformei
Em uma coisa que não faz
Nada além de te amar
Penso em você dia e noite
E não sei como te esquecer

Quantas vezes tentei
Te enterrar em minha memória
E mesmo que eu diga nunca mais
É outra vez a mesma história
Porque este amor sempre sabe
Fazer-me respirar profundo
Já me traz pela esquerda
Brigada com o mundo

Se eu pudesse me exorcizar de tua voz
Se eu pudesse escapar do teu nome
Se eu pudesse arrancar meu coração
E me esconder para não me sentir
Novamente

Bruta, cega, surda e muda,
Desastrada, traste, cabeça dura,
É tudo o que tenho sido
Por você me transformei
Em uma coisa que não faz
Nada além de te amar
Penso em você dia e noite
E não sei como te esquecer

Antipática, magra, feia, despenteada,
Desastrada, tonta, lenta, estúpida, desengonçada,
Completamente descontrolada
Você percebe e não me diz nada
Vê que há em volta
Da minha cabeça um ninho
Onde somente você tem abrigo
E não escuta o que eu te digo
Olha bem o que vai fazer comigo

Bruta, cega, surda e muda,
Desastrada, traste, cabeça dura,
É tudo o que tenho sido
Por você me transformei
Em uma coisa que não faz
Nada além de te amar
Penso em você dia e noite
E não sei como te esquecer

.......

Bom, que Shakira gravou um cd com canções em inglês pouco tempo depois todos sabem, e ela segue sendo um sucesso, conseguiu realizar o "crossover" numa boa, conquistando os EUA e o mundo com seu charme, talento e carisma. Seu mais recente cd, LAUNDRY SERVICE, lançado em novembro de 2001, manteve o estilo de seus trabalhos anteriores mesclando rock, pop e ritmos latinos numa combinação contagiante e bem-sucedida. Confesso que no início, logo que vi Shakira loira que nem a Elba Ramalho, tive um "choque" pois achei ridículo ela pintar suas madeixas e ser mais uma oxigenada na terra do tio Sam, acreditei que ela estava perdendo personalidade e seu cd seria uma porcaria americanizada, mas percebi que não e aos poucos me acostumei com o visual, apesar de que prefiro a Shakira morena, de cabelos negros, exemplo da beleza latina. Mas ela é assim camaleônica mesmo, já teve cabelos pretos lisos, ondulados, com trancinhas e linhas, vermelho, loiro cacheado, loiro liso com mechas pretas... qual será seu novo visú?? Tô na espera pelo seu novo cd que deve ser lançado só em 2004 e que na certa vou curtir bastante.

........
Logo outra pérola musical tocando aqui no Dirty Pearls!!
That's it!!
enviada por Garland