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29/05/2004 09:39
OS MELHORES TEXTOS DO BLOG (segundo eu mesmo)
Ao longo de um ano de blog foram diversos os assuntos que eu abordei aqui. É bem verdade que mais da metade do blog não é de textos "temáticos" e sim de descrição de transas ou fatos que aconteceram comigo, coisas que eu gosto (música e cinema), bem como a exposição dos meus sentimentos frente a certas coisas da minha vida sentimental. Mas algumas vezes toquei em assuntos polêmicos e interessantes, sempre sobre uma ótica muito particular, me inserindo no contexto (nada de "dissertações" acadêmicas na terceira pessoa, com introdução-desenvolvimento-conclusão bem definidos). Primeira parte de uma série de 3 trazendo "grandes momentos" do Dirty Pearls ao longo de um ano de existência do blog, essa retrospectiva reúne os textos que mais gostei postados entre 28 de abril de 2003 e 28 de abril de 2004. São os textos que achei mais interessantes, pertinentes e gostosos de ler, todos com algum "tema", passível de ser debatido. Infelizmente os comentários dos primeiros meses foram perdidos. Well, confira a lista abaixo (está em ordem de data) e tendo interesse é só clicar no título para abrir o post que contém o texto.
ÍNDICE
04/05/2003 PROCESSO INVERSO: O primeiro post em que abordei uma "temática", no caso referente a mim: se apaixonar e mesmo namorar a partir do sexo, quando o que se espera é justamente o contrário.
07/05/2003 NARCISISMO FÁLICO & VOCÊ É LARGUINHO?: Após um papo via chat com um cara fiz algumas reflexões sobre os caras que acham seu próprio pau o centro do universo e também abordei a preferência por "larguinhos" ou "apertadinhos".
10/05/2003 MULHER EM PRIMEIRO LUGAR!!!: Falando sobre meus gostos musicais e minha preferência por vocal feminino eu perguntava: "E gays são assim? Gostar mais de cantoras? Por que? E você, costuma tentar imitar a voz das cantoras, garoto?"
14/05/2003 ESSE ORGULHO QUE IMPEDE: Vivendo um dilema se ligava ou não para um cara eu abordei nesse texto o orgulho que nos impede de correr atrás de alguém e as possíveis razões disso tudo.
30/05/2003 ESPELHO, ESPELHO MAU: Em um de meus conflitos com minha aparência escrevi esse texto muito legal sobre beleza e vaidade.
31/05/2003 PARA SEMPRE DESSE JEITO: Tendo por base uma música de Jewel chamada This Way falei nesse post sobre a doce sensação de desejar que o tempo pare quando estamos vivendo um momento especial junto de alguém especial.
04/06/2003 NO SACOLEJAR DO ÔNIBUS: Um breve post sobre ficar com tesão dentro do ônibus. Contém o link para o divertido vídeo "A Mona do Lotação".
19/07/2003 MENTIRAS: Aproveitando a deixa de um filme que comentei decidi abordar o tema "Mentira". Se tem algo que detesto é mentira, as razões e as histórias referentes a esse assunto estão neste texto.
02/08/2003 COMO SOU EXTREMAMENTE BOBO!: E quando você se sente apegado a uma pessoa com quem rolou apenas sexo e se pega com ciúmes dessa pessoa? Isso costuma acontecer comigo e é sobre isso que escrevi nesse post.
07/08/2003 NÃO QUERO SABER!: Após teclar com meu ex que iniciara um novo namoro refleti sobre quando a pessoa não quer saber do passado ou dos podres do seu atual amor para não atrapalhar o momento bonito que está vivendo.
05/09/2003 CHAT-TENTAÇÃO-TRAIÇÃO: O que você acha de seu namorado acessando salas de bate-papo gay? Esse texto interessante reflete a minha opinião sobre esse assunto "complicadinho".
12/09/2003 UM REFLEXIVO CARA CAMINHANDO NA CHUVA : Um dos meus textos preferidos. Eu estava deprimido e acabei fazendo uma bela reflexão sobre meu fascínio pela chuva. Adoro esse post que contém uma poesia de minha autoria.
21/09/2003 VELHO SEBOSO!: Apontado como preconceituoso por um leitor me defendi com esse post-resposta sobre a discriminação a caras mais velhos e o preconceito com freqüentadores de dark rooms.
15/10/2003 TÓPICO 1: SOBRE O COMPORTAMENTO PÓS-SEXO, TÓPICO 2: DETESTAR SER INCONVENIENTE E O ORGULHO QUE IMPEDE;
17/10/2003 TÓPICO 3: TC DEMAIS FAZ PERDER O ENCANTO? E ATÉ ONDE TC PUTARIA É VÁLIDO?, TÓPICO 4: DESESPERADOS DA MADRUGADA e TÓPICO 5: FUNDAMENTOS DO SEXO POR TELEFONE: Empolgado, abordei em dois posts todas essas temáticas, acho que só pelos títulos já dá pra ter noção dos assuntos debatidos em cada texto.
22/10/2003 OH LORD, DÊ-ME DESPRENDIMENTO: Novamente "in love" eu analisava minha mania de me apegar aos caras com quem a transa foi nota dez e o "O Estranho Poder Que Certos Caras Exercem Sobre Mim" de fazer eu me humilhar.
13/11/2003 PRECONCEITOS, EU TENHO NÃO NEGO: Aqui falei de alguns de meus preconceitos sexuais à época. Hoje em dia alguns já nem são mais tão fortes e algumas coisas mudaram em meu modo de pensar.
06/04/2004 AUTO-ANÁLISE: GARLAND E AUTO-SABOTAGEM: Minha mania de querer ser desprendido e liberal faz eu me auto-sabotar às vezes e acabo sofrendo no fim das contas por situações que eu mesmo crio. Esse post é sobre isso.
13/04/2004 CORAGEM: Pequeno texto sobre a coragem de dizer o que pensa na cara das pessoas.
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É isso! Com um pouco de atraso estou fazendo os posts especiais de retrospectiva desse um ano de blog, podem esperar dois posts bem interessantes nos próximos dias. Enquanto isso que tal aproveitar e dar uma vasculhada nos arquivos para saber minha opinião sobre alguns temas polêmicos? O índice acima é pra isso mesmo, basta escolher o tema com que se identifica e conferir se a gente pensa parecido, baby. Depois me diga qual textinho você achou mais legal. Um abraço e até breve!
That's it!
enviada por Garland
29/05/2004 09:35
TEM UMA PESSOA ESPECIAL FAZENDO ANIVERSÁRIO HOJE!
 
Há cerca de um ano iniciei esse blog como quem não quer nada, a idéia era apenas jogar minhas neuras aqui. claro que eu gostaria que alguém lesse minhas coisas também né, mas a idéia principal não era essa e sim fazer desse espaço uma espécie de diário virtual para eu desabafar e registrar as coisas da minha vidinha. Fazer amizades através do blog? Essa idéia nem passava pela minha cabeça. Mas... eis que meu blog começou a ser acessado pela galera, comecei a ser lido e os comentários a meus posts começaram a aparecer, entre eles, logo no primeiro ou segundo mês de blog apareceu comentário de Márcia, uma transexual que também havia acabado de criar um Blig. Como é praxe retribuir visitas e comentários no mundo blogueiro eu acessei o Reflexões Trans, o blog da tal trans.
Me pareceu interessante a maneira como ela escrevia sobre as coisas de sua vida, e o assunto transexualidade também despertou minha curiosidade. Obviamente eu sabia o que era um transexual, mas interesse em particular pelo tema nunca tive, seria interessante acompanhar o dia-a-dia e o que ia na cabeça de uma trans. E assim, cativado pelo estilo de escrever de Márcia, passei a acessar com freqüência o blog dela, e sempre comentando, muitas vezes na maior empolgação, comentários enormes.
Através de nossos textos, onde expunhamos nosso modo de pensar sobre os mais diversos assuntos, pudemos, com o passar do tempo, perceber que tínhamos várias coisas em comum, afinidades e um entendimento muito legal, talvez até por sermos do mesmo signo, gêmeos. No começo os comentários de Márcia em meu blog eram mais simples, menos elaborados, assim como os meus no blog dela, mas com o passar do tempo e a identificação aumentando cada vez mais os comentários cresceram na mesma proporção e muitas vezes um complementava nos comentários o post que o outro escrevia.
Com o passar do tempo sugiu a vontade de se comunicar de forma mais efetiva, com a possibilidade de resposta imediata e a alternativa foi o Messenger. Passamos a teclar aos fins de semana, eu um pouco receoso, com medo de "estragar" a ótima relação que havíamos conquistado em nossos blogs. Até hoje eu não gosto muito de teclar com pessoas que lêem o meu blog, pois temo que o papo do dia-a-dia, as conversas de Msn, acabem quebrando aquele encanto legal e o interesse pelo blog um do outro, além do mais no mundo de blogs é mais difícil haver interpretações erradas e mal-entendidos como ocorrem mais facilmente nos bate-papos de Msn. E foi isso que acabou acontecendo entre Márcia e eu: nos desentendemos.
Creio que nunca toquei nesse assunto aqui no blog, mas na época em que comecei a teclar com Márcia eu também teclava no Msn com outra blogueira leitora do Dirty Pearls. Acontece que ela e Márcia não se bicavam e eu acabei no meio de uma situação chata, pois gostava das duas e não me sentia bem tendo que optar por uma delas só porque elas não se davam bem. O problema era delas não meu! Havia um certo ressentimento no ar, e eu sentia que estava dando margens a que me achassem um tremendo duas caras, teclando com as duas e de leva e trás, coisa que eu nem fazia. A situação me estressou e depois de um bate-papo que me desagradou optei por me afastar e cortar contato com Márcia. Teclava com a outra pessoa, mas cada vez mais enjoado com aquela história toda. Acabei aos poucos perdendo contato com ela também e hoje a gente nem tecla mais. Nesse período parei de comentar o blog de Márcia, mas continuava a ler sempre. Ela também deixou de comentar o meu.
Tempos depois recebi um e-mail de Márcia com um pedido de desculpas e decidi que valia a pena deixar as mágoas do passado e retomar contato ela. A partir daí voltamos a comentar os blogs um do outro, com muito mais empolgação e sentindo que as afinidades entre a gente eram cada vez mais evidentes, o entendimento estava cada vez melhor. Voltamos a teclar no Messenger e a compartilhar nossos problemas, nossas alegrias, nossas dúvidas, a desabafar, um dando suporte para o outro, dando a opinião, incentivando, puxando a orelha... Marcinha me pegou de surpresa com uma ligação telefônica certo dia e depois daquilo nos falamos mais algumas vezes. Mas o contato por Messenger permanece e é por ali que a gente vai mantendo nossa amizade firme e forte.
    
Well, todo esse post, essa retrospectiva aí é pra dizer que, há um ano eu tenho contato Marcinha, e se existe algo de bom em ter criado este blog foi ter conhecido ela, assim como alguns outros amigos do mundo blogueiro. Mas Marcinha sem dúvida foi uma das mais especiais e que mais me ajudou nesse último ano, foi uma das pessoas mais legais que eu conheci através do Dirty Pearls. Temos uma ótima química de Messenger e nos compreendemos muito bem, cada um respeitando o tempo do outro, sabendo "ouvir", sabendo opinar, dar uma força... É claro que existem diferenças de personalidade, coisas que ela faz eu não faria e vice-versa, jeitos que ela pensa ou age eu faço o contrário, mas o mais legal é a maneira como lidamos com essas diferenças: com compreensão e respeito. A gente pode discordar, mas sempre respeita a opinião um do outro e dessa forma a gente já se conhece um bocado. Só falta nos conhecermos pessoalmente, mas isso de forma alguma é impossível, é uma questão de tempo, de circunstâncias e um dia desses acaba acontecendo.
Aprendi a ter um grande carinho por Márcia, e hoje posso dizer que considero ela uma grande amiga, não apenas amiga virtual, apesar de que é por aqui que se dá a maioria de nossos contatos, mas uma amiga real, que me compreende e a quem eu também aprendi a compreender. Compreender e admirar, pois ela é uma pessoa especial, guerreira, com uma história de vida muito cheia de lições de garra, de coragem, de força de vontade; ela tem talento e isso é possível ver através de seu blog, tão interessante. Marcinha é uma pessoa que me cativou e que eu considero realmente especial.
Por isso Marcinha, agora na passagem de teu aniversário, e sempre, eu te desejo toda felicidade do mundo! Que você consiga ter os seus sonhos realizados e que seus anos sejam cheios de sucesso no amor e no profissional, cheios de saúde e muitas alegrias. Eu sempre torço por você, pela tua felicidade. Como eu já te disse antes, no meu coração existe um compartimentozinho onde tá escrito "Marcinha" e é reservado a você, que faz parte da minha vida como uma amiga maravilhosa. Espero que possamos por muitos anos manter a amizade bonita que a gente conquistou através dos nossos papos e dos nossos blogs, e daqui a um ano estar te parabenizando novamente, se não aqui então no Msn, por e-mail, por telefone, ou até mesmo pessoalmente, por que não? hehhe. Sinta-se beijada e abraçada fortemente. Obrigado por tudo e parabéns pelo teu níver!!
 
That's it!
enviada por Garland
29/05/2004 09:18
VICTOR WEBSTER
UH, TESÃÃÃO!!!
Thats's it!
enviada por Garland
27/05/2004 03:24
CONTO Caio Fernando Abreu DO MÊS
Enquanto não me empolgo a postar novidades deixo aqui a tradicional seção com o conto do mês de meu escritor predileto Caio Fernando Abreu. Dessa vez peguei um texto que não é dos meus preferidos para ser sincero, no entanto foi o que estava à mão e é um ótimo conto, como a grande maioria dos contos de Caio. Talvez não figure entre meus favoritos justamente por não ser um conto de caráter (homo)sexual, como a maioria dos que já disponibilizei aqui e que são os que mais gosto. Linda, Uma História Horrível é rico na descrição das sensações, o ponto forte na obra de Caio, é possível inserir-se no contexto de tal forma que quase dá pra sentir o cheiro do ambiente. É um conto forte, viagem crua ao universo da velhice, retorno do filho possivelmente doente à casa materna. É um conto um tanto longo e deprimente, mas instigante e profundo como quase todos os textos de Caio. O conto foi publicado originalmente no livro Os Dragões não Conhecem o Paraíso, Companhia das Letras - São Paulo, 1988 e também incluído entre Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, seleção de Ítalo Moriconi, Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág. 502. Boa leitura!
LINDA, UMA HISTÓRIA HORRÍVEL
Para Sergio Keuchguerian
"Você nunca ouviu falar em maldição
nunca viu um milagre
nunca chorou sozinha num banheiro sujo
nem nunca quis ver a face de Deus."
(Cazuza: "Só as mães são felizes")
Só depois de apertar muitas vezes a campainha foi que escutou o rumor de passos descendo a escada. E reviu o tapete gasto, antigamente púrpura, depois apenas vermelho, mais tarde rosa cada vez mais claro - agora, que cor? - e ouviu o latido desafinado de um cão, uma tosse noturna, ruídos secos, então sentiu a luz acesa do interior da casa filtrada pelo vidro cair sobre sua cara de barba por fazer, três dias. Meteu as mãos nos bolsos, procurou um cigarro ou um chaveiro para rodar entre os dedos, antes que se abrisse a janelinha no alto da porta.
Enquadrado pelo retângulo, o rosto dela apertava os olhos para vê-lo melhor. Mediram-se um pouco assim - de fora, de dentro da casa -, até ela afastar o rosto, sem nenhuma surpresa. Estava mais velha, viu ao entrar. E mais amarga, percebeu depois.
- Tu não avisou que vinha - ela resmungou no seu velho jeito azedo, que antigamente ele não compreendia. Mas agora, tantos anos depois, aprendera a traduzir como que-saudade, seja-benvindo, que-bom-ver-você ou qualquer coisa assim. Mais carinhosa, embora inábil.
Abraçou-a, desajeitado. Não era um hábito, contatos, afagos. Afundou tonto, rápido, naquele cheiro conhecido - cigarro, cebola, cachorro, sabonete, creme de beleza e carne velha, sozinha há anos. Segurando-o pelas duas orelhas, como de costume, ela o beijou na testa. Depois foi puxando-o pela mão, para dentro.
- A senhora não tem telefone - explicou. - Resolvi fazer uma surpresa.
Acendendo luzes, certa ânsia, ela o puxava cada vez mais para dentro. Mal podia rever a escada, a estante, a cristaleira, os porta-retratos empoeirados. A cadela se enrolou nas pernas dele, ganindo baixinho.
- Sai, Linda - ela gritou, ameaçando um pontapé. A cadela pulou de lado, ela riu. - Só ameaço, ela respeita. Coitada, quase cega. Uma inútil, sarnenta. Só sabe dormir, comer e cagar, esperando a morte.
- Que idade ela tem? - ele perguntou. Que esse era o melhor jeito de chegar ao fundo: pelos caminhos transversos, pelas perguntas banais. Por trás do jeito azedo, das flores roxas do robe.
- Sei lá, uns quinze. - A voz tão rouca. - Diz-que idade de cachorro a gente multiplica por sete.
Ele forçou um pouco a cabeça, esse era o jeito:
- Uns noventa e cinco, então.
Ela colocou a mala dele em cima de uma cadeira da sala. Depois apertou novamente os olhos. E espiou em volta, como se acabasse de acordar:
- O quê?
- A Linda. Se fosse gente, estaria com noventa e cinco anos.
Ela riu:
- Mais velha que eu, imagina. Velha que dá medo. - Fechou o robe sobre o peito, apertou a gola com as mãos. Cheias de manchas escuras, ele viu, como sardas (ce-ra-to-se, repetiu mentalmente), pintura alguma nas unhas rentes dos dedos amarelos de cigarros. - Quer um café?
- Se não der trabalho - ele sabia que esse continuava sendo o jeito exato, enquanto ela adentrava soberana pela cozinha, seu reino. Mãos nos bolsos, olhou em volta, encostado na porta.
As costas dela, tão curvas. Parecia mais lenta, embora guardasse o mesmo jeito antigo de abrir e fechar sem parar as portas dos armários, dispor xícaras, colheres, guardanapos, fazendo muito ruído e forçando-o a sentar - enquanto ele via. Manchadas de gordura, as paredes da cozinha. A pequena janela basculante, vidro quebrado. No furo do vidro, ela colocara uma folha de jornal. País mergulha no caos, na doença e na miséria - ele leu. E sentou na cadeira de plástico rasgado.
- Tá fresquinho - ela serviu o café. - Agora só consigo dormir depois de tomar café.
-A senhora não devia. Café tira o sono.
Ela sacudiu os ombros:
- Dane-se. Comigo sempre foi tudo ao contrário.
A xícara amarela tinha uma nódoa escura no fundo, bordas lascadas. Ele mexeu o café, sem vontade. De repente, então, enquanto nem ele nem ela diziam nada, quis fugir. Como se volta a fita num videocassete, de costas, apanhar a mala, atravessar a sala, o corredor de entrada, ultrapassar o caminho de pedras do jardim, sair novamente para a ruazinha de casas quase todas brancas. Até algum táxi, o aeroporto, para outra cidade, longe do Passo da Guanxuma, até a outra vida de onde vinha. Anônima, sem laços nem passado. Para sempre, para nunca mais. Até a morte de qualquer um dos dois, teve medo. E desejou. Alívio, vergonha.
- Vá dormir - pediu. - É muito tarde. Eu não devia ter vindo assim, sem avisar. Mas a senhora não tem telefone.
Ela sentou à frente dele, o robe abriu-se. Por entre as flores roxas, ele viu as inúmeras linhas da pele, papel de seda amassado. Ela apertou os olhos, espiando a cara dele enquanto tomava um gole de café.
- Que que foi? - perguntou, lenta. E esse era o tom que indicava a abertura para um novo jeito. Mas ele tossiu, baixou os olhos para a estamparia de losangos da toalha. Vermelho, verde. Plástico frio, velhos morangos.
- Nada, mãe. Não foi nada. Deu saudade, só isso. De repente, me deu tanta saudade. Da senhora, de tudo.
Ela tirou um maço de cigarros do bolso do robe:
- Me dá o fogo.
Estendeu o isqueiro. Ela tocou na mão dele, toque áspero das mãos manchadas de ceratose nas mãos muito brancas dele. Carícia torta:
- Bonito, o isqueiro.
- É francês.
- Que é isso que tem dentro?
- Sei lá, fluido. Essa coisa que os isqueiros têm. Só que este é transparente, nos outros a gente não vê.
Ela ergueu o isqueiro contra a luz. Reflexos de ouro, o líquido verde brilhou. A cadela entrou por baixo da mesa, ganindo baixinho. Ela pareceu não notar, encantada com o por trás do verde, líquido dourado.
- Parece o mar - sorriu. Bateu o cigarro na borda da xícara, estendeu o isqueiro de volta para ele. - Então quer dizer que o senhor veio me visitar? Muito bem.
Ele fechou o isqueiro na palma da mão. Quente da mão manchada dela.
- Vim, mãe. Deu saudade.
Riso rouco:
- Saudade? Sabe que a Elzinha não aparece aqui faz mais de mês? Eu podia morrer aqui dentro. Sozinha. Deus me livre. Ela nem ia ficar sabendo, só se fosse pelo jornal. Se desse no jornal. Quem se importa com um caco velho?
Ele acendeu um cigarro. Tossiu forte na primeira tragada:
- Também moro só, mãe. Se morresse, ninguém ia ficar sabendo. E não ia dar no jornal.
Ela tragou fundo. Soltou a fumaça, círculos. Mas não acompanhou com os olhos. Na ponta da unha, tirava uma lasca da borda da xícara.
- É sina - disse. - Tua avó morreu só. Teu avô morreu só. Teu pai morreu só, lembra? Naquele fim de semana que eu fui pra praia. Ele tinha horror do mar. Uma coisa tão grande que mete medo na gente, ele dizia. Jogou longe a bolinha com a pintura da xícara. - E nem um neto, morreu sem um neto nem nada. O que mais ele queria.
- Já faz tempo, mãe. Esquece - ele endireitou as costas, doíam. Não, decidiu: naquele poço, não. O cheiro, uma semana, vizinhos telefonando. Passou as pontas dos dedos pelos losangos desbotados da toalha. - Não sei como a senhora consegue continuar morando aqui sozinha. Esta casa é grande demais pra uma pessoa só. Por que não vai morar com a Elzinha?
Ela fingiu cuspir de lado, meio cínica. Aquele cinismo de telenovela não combinava com o robe desbotado de flores roxas, cabelos quase inteiramente brancos, mãos de manchas marrons segurando o cigarro quase no fim.
- E agüentar o Pedro, com aquela mania de grandeza? Pelo amor de Deus, só se eu fosse sei lá. Iam ter que me esconder no dia das visitas, Deus me livre. A velha, a louca, a bruxa. A megera socada no quartinho de empregada, feito uma negra. - Bateu o cigarro. - E como se não bastasse, tu acha que iam me deixar levar a Linda junto?
Embaixo da mesa, ao ouvir o próprio nome a cadela ganiu mais forte.
- Também não é assim, não é, mãe? A Elzinha tem a faculdade. E o Pedro no fundo é boa gente. Só que.
Ela remexeu nos bolsos do robe. Tirou uns óculos de hastes remendadas com esparadrapo, lente rachada.
- Deixa eu te ver melhor - pediu.
Ajeitou os óculos. Ele baixou os olhos. No silêncio, ficou ouvindo o tic-tac do relógio da sala. Uma barata miúda riscou o branco dos azulejos atrás dela.
- Tu estás mais magro - ela observou. Parecia preocupada. - Muito mais magro.
- É o cabelo - ele disse. Passou a mão pela cabeça quase raspada. E a barba, três dias.
- Perdeu cabelo, meu filho.
- É a idade. Quase quarenta anos. - Apagou o cigarro. Tossiu. - E essa tosse de cachorro?
- Cigarro, mãe. Poluição.
Levantou os olhos, pela primeira vez olhou direto nos olhos dela. Ela também olhava direto nos olhos dele. Verde desmaiado por trás das lentes dos óculos, subitamente muito atentos. Ele pensou: é agora, nesta contramão(*). Quase falou. Mas ela piscou primeiro. Desviou os olhos para baixo da mesa, segurou com cuidado a cadela sarnenta e a trouxe até o colo.
- Mas vai tudo bem?
- Tudo, mãe.
- Trabalho?
Ele fez que sim. Ela acariciou as orelhas sem pêlo da cadela. Depois olhou outra vez direto para ele:
- Saúde? Dizque tem umas doenças novas aí, vi na tevê. Umas pestes.
- Graças a Deus - ele cortou. Acendeu outro cigarro, as mãos tremiam um pouco. - E a dona Alzira, firme?
A ponta apagada do cigarro entre os dedos amarelos, ela estava recostada na cadeira. Olhos apertados, como se visse por trás dele. No tempo, não no espaço. A cadela apoiara a cabeça na mesa, os olhos branquicentos fechados. Ela suspirou, sacudiu os ombros:
- Coitada. Mais esclerosada do que eu.
- A senhora não está esclerosada.
- Tu que pensa. Tem vezes que me pego falando sozinha pelos cantos. Outro dia, sabe quem eu chamava o dia inteiro? - Esperou um pouco, ele não disse nada. - A Cândida, lembra dela? Ô negrinha boa, aquela. Até parecia branca. Fiquei chamando, chamando o dia inteiro. Cândida, ô Cândida. Onde é que tu te meteu, criatura? Aí me dei conta.
- A Cândida morreu, mãe.
Ela tornou a passar a mão pela cabeça da cadela. Mais devagar, agora. Fechou os olhos, como se as duas dormissem.
- Pois é, esfaqueada. Que nem um porco, lembra? - Abriu os olhos. - Quer comer alguma coisa, meu filho?
- Comi no avião.
Ela fingiu cuspir de lado, outra vez.
- Cruz credo. Comida congelada, Deus me livre. Parece plástico. Lembra daquela vez que eu fui? - Ele sacudiu a cabeça, ela não notou. Olhava para cima, para a fumaça do cigarro perdida contra o teto manchado de umidade, de mofo, de tempo, de solidão. - Fui toda chique, parecia uma granfa. De avião e tudo, uma madame. Frasqueira, raiban. Contando, ninguém acredita. - Molhou um pedaço de pão no café frio, colocou-o na boca quase sem dentes da cadela. Ela engoliu de um golpe. - Sabe que eu gostei mais do avião do que da cidade? Coisa de louco, aquela barulheira. Nem parece coisa de gente, como é que tu agüenta?
- A gente acostuma, mãe. Acaba gostando.
- E o Beto? - ela perguntou de repente. E foi baixando os olhos até encaixarem, outra vez, direto nos olhos dele.
Se eu me debruçasse? - ele pensou. Se, então, assim. Mas olhou para os azulejos na parede atrás dela. A barata tinha desaparecido.
- Tá lá, mãe. Vivendo a vida dele.
Ela voltou a olhar o teto:
- Tão atencioso, o Beto. Me levou pra jantar, abriu a porta do carro pra mim. Parecia coisa de cinema. Puxou a cadeira do restaurante pra eu sentar. Nunca ninguém tinha feito isso. - Apertou os olhos. - Como era mesmo o nome do restaurante? Um nome de gringo.
- Casserole, mãe. La Casserole. - Quase sorriu, ele tinha uns olhos de menino, lembrou. - Foi boa aquela noite, não foi?
- Foi - ela concordou. - Tão boa, parecia filme. - Estendeu a mão por sobre a mesa, quase tocou na mão dele. Ele abriu os dedos, certa ânsia. Saudade, saudade. Então ela recuou, afundou os dedos na cabeça pelada da cadela.
- O Beto gostou da senhora. Gostou tanto - ele fechou os dedos. Assim fechados, passou-os pelos pêlos do próprio braço. Umas memórias, distância. - Ele disse que a senhora era muito chique.
- Chique, eu? Uma velha grossa, esclerosada. - Ela riu, vaidosa, mão manchada no cabelo branco. Suspirou. - Tão bonito. Um moço tão fino, aquilo é que é moço fino. Eu falei pra Elzinha, bem na cara do Pedro. Pra ele tomar como indireta mesmo, eu disse bem alto, bem assim. Quem não tem berço, a gente vê logo na cara. Não adianta ostentar, tá escrito. Que nem o Beto, aquela calça rasgadinha. Quem ia dizer que era um moço assim tão fino, de tênis? - Voltou a olhar dentro dos olhos dele. - Isso é que é amigo, meu filho. Até meio parecido contigo, eu fiquei pensando. Parecem irmãos. Mesma altura, mesmo jeito, mesmo.
- A gente não se vê faz algum tempo, mãe.
Ela debruçou um pouco, apertando a cabeça da cadela contra a mesa. Linda abriu os olhos esbranquiçados. Embora cega, também parecia olhar para ele. Ficaram se olhando assim. Um tempo quase insuportável, entre a fumaça dos cigarros, cinzeiros cheios, xícaras vazias - os três, ele, a mãe e Linda.
- E por quê?
- Mãe - ele começou. A voz tremia. - Mãe, é tão difícil - repetiu. E não disse mais nada.
Foi então que ela levantou. De repente, jogando a cadela ao chão como um pano sujo. Começou a recolher xícaras, colheres, cinzeiros, jogando tudo dentro da pia. Depois de amontoar a louça, derramar o detergente e abrir as torneiras, andando de um lado para outro enquanto ele ficava ali sentado, olhando para ela, tão curva, um pouco mais velha, cabelos quase inteiramente brancos, voz ainda mais rouca, dedos cada vez mais amarelados pelo fumo, guardou os óculos no bolso do robe, fechou a gola, olhou para ele e - como quem quer mudar de assunto, e esse também era um sinal para um outro jeito que, desta vez sim, seria o certo - disse:
- Teu quarto continua igual, lá em cima. Vou dormir que amanhã cedo tem feira. Tem lençol limpo no armário do banheiro.
Então fez uma coisa que não faria, antigamente. Segurou-o pelas duas orelhas para beijá-lo não na testa, mas nas duas faces. Quase demorada. Aquele cheiro - cigarro, cebola, cachorro, sabonete, cansaço, velhice. Mais qualquer coisa úmida que parecia piedade, fadiga de ver. Ou amor. Uma espécie de amor.
- Amanhã a gente fala melhor, mãe. Tem tempo, dorme bem. Debruçado na mesa, acendeu mais um cigarro enquanto ouvia os passos dela subindo pesados pela escada até o andar superior. Quando ouviu a porta do quarto bater, levantou e saiu da cozinha.
Deu alguns passos tontos pela sala. A mesa enorme, madeira escura. Oito lugares, todos vazios. Parou em frente ao retrato do avô - rosto levemente inclinado, olhos verdes aguados que eram os mesmos da mãe e também os dele, heranças. No meio do campo, pensou, morreu só com um revólver e sua sina. Levou a mão até o bolso interno do casaco, tirou a pequena garrafa estrangeira e bebeu. Quando a afastou, gotas de uísque rolaram pelos cantos da boca, pescoço, camisa, até o chão. A cadela lambeu o tapete gasto, olhos quase cegos, língua tateando para encontrar o líquido.
Ele abriu os olhos. Como depois de uma vertigem, percebeu-se a olhar fixamente para o grande espelho da sala. No fundo do espelho na parede da sala de uma casa antiga, numa cidade provinciana, localizou a sombra de um homem magro demais, cabelos quase raspados, olhos assustados feito os de uma criança. Colocou a garrafa sobre a mesa, tirou o casaco. Suava muito. Jogou o casaco na guarda de uma cadeira. E começou a desabotoar a camisa manchada de suor e uísque.
Um por um, foi abrindo os botões. Acendeu a luz do abajur, para que a sala ficasse mais clara quando, sem camisa, começou a acariciar as manchas púrpura, da cor antiga do tapete na escada - agora, que cor? -, espalhadas embaixo dos pêlos do peito. Na ponta dos dedos, tocou o pescoço. Do lado direito, inclinando a cabeça, como se apalpasse uma semente no escuro. Depois foi dobrando os joelhos até o chão. Deus, pensou, antes de estender a outra mão para tocar no pêlo da cadela quase cega, cheio de manchas rosadas. Iguais às do tapete gasto da escada, iguais às da pele do seu peito, embaixo dos pêlos. Crespos, escuros, macios.
- Linda - sussurrou. - Linda, você é tão linda, Linda.
(*) Ana Cristina César: "A teus pés".
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That's it!
enviada por Garland
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